Domingo, 18 de Dezembro de 2005

O PCP SEM CUNHAL (1)

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“Nos que fizeram a estrada da esquerda para o centro e a direita, Pacheco Pereira é, a vários títulos, a referência mais sólida. Porque, para lá da espuma dos dias, o seu objecto de trabalho é a história do "lado" que um dia deixou. E nesse trabalho tem o mérito de não ajustar contas. Investiga, indaga, colecciona, articula, veste a pele e ensaia respostas às interrogações que o tempo coloca. A sua biografia de Álvaro Cunhal é um notabilíssimo documento. Não é "a" história do PCP. Mas é, seguramente, a melhor história que sobre o PCP até agora se fez. Pacheco Pereira historiador não merecia a triste nota que a Secção de Imprensa do PCP recentemente lhe dedicou, acusando-o de "uma pretensa investigação cujo objectivo é inocentar a PIDE e criminalizar o PCP". Esta e outras barbaridades sobre o "branqueamento do fascismo" constam dessa nota digna dos anos 50 e que prova, à saciedade, como o estalinismo renasce na Soeiro Pereira Gomes, mal se interroguem verdades sagradas, ou se investigue sobre os aspectos menos honrosos que a história de qualquer corpo humano inevitavelmente comporta.”
”Se em vez de notas como esta, o PCP abrisse os seus arquivos à investigação dos historiadores, faria bem melhor. Porque os comunistas portugueses não têm que se envergonhar da sua história. Partidos com histórias bem mais complexas, do ponto de vista do equilíbrio entre sombras e luzes, abriram os seus arquivos. O último a fazê-lo, bem recentemente, foi o Partido Comunista Francês.”

(Miguel Portas, “Diário de Notícias”, 17/12/2005)

Miguel Portas tem razão no que escreveu. Ao criticar a teimosia de uma casa que persiste em manter paredes e telhados de chapa de aço e ao considerar de “notabilíssimo” o trabalho histórico de José Pacheco Pereira de biografia política de Álvaro Cunhal (agora no terceiro volume, ficando a faltar um quarto, relativo ao período 1960-1974).

Coincidindo com a última e mais prolongada prisão de Cunhal, entre 1949 e 1960, o período em causa foi dos mais agitados e perturbados da vida política portuguesa e em que o regime fascista mais à beira esteve do seu colapso (o grande pico foi o furacão da candidatura de Delgado). E quando o PCP não só atingiu umas das suas fases de maior influência como de maior declínio (sobretudo pela terrível repressão e sequência de traições e deserções nos anos de 1958 e 1959). Ou seja, com o PCP sem Cunhal na sua direcção. E esta, herdada da reorganização dirigida por Cunhal nos anos quarenta, órfã de Cunhal, mostrou-se incapaz de seguir um rumo determinado e coerente, ziguezagueando entre o sectarismo e o liberalismo, virando á esquerda e à direita, voluntarista ou expectante, desprovida de uma liderança com autoridade que fosse aceite pelos funcionários e militantes e dando mostras de desorientação após a morte de Estaline e o sismo ideológico do XX Congresso do PCUS em 1956. Chega-se até ao ostracismo relativamente a Cunhal. Tal como o anterior à sua prisão em 1949, o período seguinte a 1960, após a fuga de Peniche, mostraria que, sem Cunhal, ou com Cunhal, tivemos sempre dois PCP’s. Como diz JPP a finalizar este terceiro volume, após fugir de Peniche e retomar a clandestinidade e a direcção a partir do exílio: “A sua acção política levará Cunhal a tomar de novo conta da Direcção do partido e á afirmação indiscutível, nas décadas de sessenta e setenta, como um dos grandes dirigentes comunistas mundiais, internacionalmente reconhecido, cujas decisões moldaram a história de Portugal e das colónias portuguesas até aos dias de hoje.” E o declínio, a descaraterização e a actual deriva populista do PCP, nesta última fase que se iniciou com o afastamento de Cunhal, agora por motivo da sua idade e saúde, ainda mantêm a actualidade da confirmação que, sem Cunhal, é de um outro PCP que se trata quando se trata do PCP.

Naquilo que julgamos ser uma iniciativa inédita, JPP abriu um blogue sobre a obra biográfica sobre Cunhal e sobre a história do PCP (e confundindo-se PCP e Cunhal, a obra é tanto sobre Cunhal como sobre o PCP). Neste blogue, há não só uma recolha de referências e apreciações críticas, como espaço para corrigir imprecisões [Estas existem e são várias, mas inevitáveis tendo em conta que o PCP não abre mão dos seus arquivos, para que as sombras, que emparelham com as glórias de tenacidade e de luta heróica, não sejam sequer pressentidas e não tirem o brilho da propaganda ao panegírico e á glorificação iconográfica. Como se fosse possível que o PCP, para mais nas condições em que actuou durante o fascismo, pudesse ser, apenas, um partido de torturados, presos, clandestinos, heróis, mártires e santos, sem a companhia de alguns canalhas e outros tantos miseráveis traidores e oportunistas].
publicado por João Tunes às 22:22
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De IO a 19 de Dezembro de 2005 às 09:56
João, obrigada por estes posts - abraço, IO.


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