Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2005

MEIA-VERDADE PARA UM SILÊNCIO

lopes_graca.jpg

Tem quase razão o colunista do DN, Ruben Carvalho, quando escreveu:

“Neste fim-de-semana quase todos os diários dedicaram extensos textos ao centenário do nascimento de Fernando Lopes-Graça e às diversas iniciativas oficiais que a propósito irão decorrer. Esclarece-se discretamente em todos eles o empenho político do compositor, "a sua militância na oposição ao Estado Novo". Mas nem uma linha sobre o facto de Lopes-Graça ter sido, desde a juventude até ao seu desaparecimento, um activo, coerente e combativo militante do PCP.” (texto completo aqui).

De facto, não faz sentido esconder a qualidade de militante comunista desse nosso grande músico Fernando Lopes-Graça. Ele, aliás, nunca escondeu essa qualidade que muito o orgulhava. [Tive a honra de, apesar da diferença nas idades, ter sido amigo pessoal de Fernando Lopes-Graça, antes e depois de 1974, com quem muito aprendi nas muitas oportunidades de convívio particular e circum-actividades do Coro da Academia de Amadores de Música, que ele dirigiu durante muitos anos.]

Mas, de igual forma, não tem rigor dizer, como diz Ruben, que o genial compositor e maestro foi “desde a juventude até ao seu desaparecimento, um activo, coerente e combativo militante do PCP”, dando uma linha de continuidade à ligação entre Lopes-Graça e o PCP. Faltou, para que se completasse o retrato biográfico, que Ruben dissesse que Lopes-Graça, por colaborar com publicações “interditas” pelo PCP (como a revista “Ler”, dirigida por Piteira Santos), bem como a posição de divergência estética com a linha sectária de uma certa fase da direcção do PCP (em que tinha os seus Zdanovs em Cunhal, António José Saraiva e outros) imposta à revista “Vértice”, foi afastado e combatido pelo PCP, levando-o a uma longa “travessia do deserto” que durou bastantes anos até á sua reintegração posterior e que marcou o artista com uma profunda e dorida amargura.

Ao silêncio sobre a qualidade de militante comunista de Lopes-Graça, Ruben responde com uma meia-verdade em que “limpa” as “inconveniências” para o PCP. E, no meu entender, uma meia-verdade propositada (Ruben de Carvalho é dirigente do PCP, decerto sabe a história inteira de Lopes-Graça), como meio de apropriação propagandística, não dá moral alguma para se combater e interpretar um qualquer (e indesejável) silêncio. Pois, por estas e por outras, é que os arquivos do PCP continuam fechados a sete chaves – para que a propaganda esconda o que não (lhes) interessa, continuando a tentar mentir, sem contraditório, por omissão ou por meias-verdades.
publicado por João Tunes às 00:47
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1 comentário:
De amilcar a 19 de Abril de 2007 às 05:02
devem dor-te muito os cotovelos....
Ha Ha HA...


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