Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2005

O PCP SEM CUNHAL (2) (*)

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Um dos aspectos paradoxais e mais interessantes da história do PCP, abordados no último livro de José Pacheco Pereira é a constatação da “evolução” política e partidária de um conjunto de seus dirigentes - alguns que continuam a ter, ainda hoje (salvo os entretanto falecidos ou com inaptidão pela idade e pela saúde), uma influência determinante sobre a actual direcção - e que, após o retorno de Cunhal á direcção do PCP (após a fuga de Peniche, em 1960), contituíram, até à sua morte política (motivada por exclusivas razões de saúde e de idade), o seu núcleo de admiradores, seguidores e continuadores, preenchendo quase todos os lugares da sua “corte política” no após-25 de Abril.

O primeiro dado interessante é que esses dirigentes preencheram os lugares de mais alta responsabilidade e decisão política no tempo em que Cunhal (devido à sua prisão e isolamento) esteve “fora do partido” (período 1949-1960). Um período considerado “negro” na história do PCP, depois estigmatizado como tendo sido a fase do “desvio de direita” e do domínio da tendência “anarco-liberal” (e que incluiu a realização do V Congresso em 1957). Neste período, em que dominou a liderança, sempre polémica e repleta de altos e baixos, de Júlio Fogaça, o PCP, sem Cunhal, atravessou uma fase politicamente errática e desorientada. Primeiro, na fase última do estalinismo tardio, atravessou uma das suas fases mais sectárias que fez estragos enormes não só no campo da Oposição como nas fileiras do partido. Cometeu até o desvio de praticar para com Cunhal prisioneiro, um decalque de “culto da personalidade” para com o “Pai dos Povos” aplicado aqui ao seu dirigente preso mais destacado (são variados os exemplos desse “culto” laudatório, heroificante e mitificante e em que Cunhal era tratado como “discípulo dilecto de Lenine e Estaline” e que teve eco internacional com o célebre poema de Neruda e um texto de Jorge Amado, ambos dedicados ao super-herói Cunhal). Depois, após a morte de Estaline e sobretudo depois do XX Congresso do PCUS, em 1956, há uma inversão de quase 180 graus na linha política e nos métodos de direcção, que retomam um “desvio” anterior no partido (germinado entre os prisioneiros do Tarrafal), de que Fogaça fora um importante mentor e propagandista, e que colocava os objectivos revolucionários a reboque da crença numa transição pacífica do fascismo para a democracia e ilusões sobre a importância da atracção de fascistas desiludidos (que, nas novas condições, era um decalque menor das teses de Krutchov sobre a “coexistência pacífica” entre o socialismo e o imperialismo). Chega-se até ao ponto de se ostracizar Cunhal prisioneiro (não foi informado da realização do V Congresso e foi retirado da composição do CC, apagando-se a campanha pela sua libertação no momento em que Cunhal havia terminado a condenação no Tribunal Plenário e entrado no cumprimento das famigeradas "medidas de segurança" e que, se não fugisse e o fascismo não caisse, lhe custaria a prisão perpétua).

Neste período ziguezagueante, órfão de Cunhal, o PCP, “semi-liderado” por Fogaça, inclui, na sua direcção, com as maiores responsabilidades, nomes bem famosos da actividade partidária – Dias Lourenço, Pires Jorge, Pedro Soares, Carlos Costa, Octávio Pato, Sérgio Vilarigues, Joaquim Gomes, José Magro, Carlos Aboim Inglez, Francisco Miguel, António Gervásio, Francisco Martins Rodrigues, Jaime Serra e uns tantos outros, incluindo aqueles que iriam, miseravelmente, trocar o PCP pela PIDE (casos de Mesquita, Marinho, Verdeal, Lindolfo, mais outros). Entretanto, é a fase da funcionalização de elementos mais novos e que viriam a fazer parte da “guarda pretoriana” de Cunhal (caso de Domingos Abrantes, ainda hoje a assumir-se como o “mais puro” herdeiro político e ideológico de Cunhal, após o seu afastamento, determinante, na sombra, na escolha de Jerónimo como SG e na sua tutoria partidária). Não falando nos traidores, todos estes dirigentes, juntamente com Fogaça, mas todos com porte heróico quando presos, foram co-responsáveis, na formulação, na teorização e na concretização, do tão - posteriormente - vilipendiado “desvio de direita” e das tendências “anarco-liberais”.

Depois das profundas correcções que Cunhal imprime ao partido, assumindo a sua liderança em termos absolutos, incontestados e disciplinado-o com mão férrea, após a sua fuga de Peniche (arrastando consigo um núcleo numeroso de outros importantes dirigentes), o PCP reencontra-se com o PCP deixado por Cunhal quando da sua prisão em 1949 (que ele já havia depurado na fase da “reorganização”). Cunhal foi implacável na denúncia arrasadora da actividade da direcção do PCP na sua ausência, não deixando pedra sobre pedra nos aspectos da disciplina e do enquadramento ideológico. Para mais, consagrado pelo PCUS como um dos mais iminentes dirigentes comunistas internacionais, protegido pela eminência parda do Kremlin – Suslov -, funcionando até como aríete na denúncia dos desvios “internacionalistas” (o PCP foi o primeiro partido, entre os dos países capitalistas, a apoiar a intervenção da URSS na Checoslováquia, e dos mais combativos na luta contra o “desvio maoísta”).

Quando Cunhal se senta no trono absolutista do comando do PCP, recupera para a sua corte quase todos os dirigentes que haviam praticado e dirigido o terrível “desvio de direita”, fidelizando-os indefectivelmente (através do peso contricto da participação no “desvio”?). Só dois dirigentes seriam atirados borda fora – Fogaça (o grande rival, miseravelmente expulso do PCP com pretexto na sua presumida homossexualidade) que arcou com a concentração nele do papel de “besta negra”; e, mais tarde, Francisco Martins Rodrigues (pelo seu desvio “maoísta”, expulso do PCP sob acusação de se ter apropriado de ... uma máquina de escrever da propriedade do partido).

Todos os outros dirigentes, participantes no “horrível desvio de direita”, foram regenerados e passaram ao núcleo dos “mais papistas” na obediência a Cunhal, em que nunca mais vacilaram (para mais, Cunhal não voltou a ser preso!). Foram estes, uns mais e outros menos conhecidos, os revolucionários comunistas mais destacados no Portugal do PREC depois de 25 de Abril. Um núcleo, também ele, a ser, a pouco e pouco, vencido pela idade, como aconteceu a Cunhal. Hoje, são uma sombra em rarefacção a vigiar pela “pureza cunhalista” do PCP. A passarem o testemunho do legado a Jerónimo e outros dirigentes filiados após 25 de Abril. Num PCP acelerado agora num desvio populista e eleitoralista (ontem, vanguarda da classe operária e do proletariado agrícola; hoje, vanguarda de juízes, militares, funcionários públicos, professores, médicos, enfermeiros, donos de farmácias e polícias; ontem revolucionário, hoje a caçar votos com abraços, beijos, boas falas, árias de fadista e passos de dança) sem hipótese de Cunhal voltar para corrigir mais estes desvios à praxis portuguesa do marxismo-leninismo.

(*) - Ou para que se perceba porque é que o PCP não abre os seus arquivos aos historiadores.
publicado por João Tunes às 17:47
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