Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2005

MAIS UM BEDUÍNO A AMEAÇAR LEVANTAR A TENDA

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O que se está a passar na Auto Europa demonstra quanto é frágil a realidade industrial dos dias de hoje. E, nessa realidade, a contingência que baliza a reinvidicação operária.

O fenómeno não é novo (sim, é claro, pode haver quem só tenha descoberto a globalização há pouco tempo, mas ela existe desde que o capital existe, pelo menos desde que “deixou de ter pátria” e que lhe foi vício adquirido na nascença). Estávamos habituados a ver o abre aqui e fecha acolá, seguido do fecha aqui e abre acolá, nos têxteis e lanifícios, nas confecções de vestuário, na montagem electrónica, no fabrico de sapatos, na produção de acessórios. Ou seja, pequenas ou médias filiais que aqui só se tinham instalado pelos salários baixíssimos. As dimensões e o equipamento eram propícios aos movimentos das empresas com “tendas de beduínos” espalhadas mundo fora. Com a Auto Europa, o caso muda de figura, a dimensão e importância nas exportações e no emprego são de escala perturbante.

Há poucos meses, os baixos custos de produção (mercê dos baixos salários relativos) em Palmela, serviram como factor de chantagem numa fábrica da VW na Alemanha. Os operários alemães foram obrigados a cederem para terem emprego para a produção de um novo modelo da marca. Em Portugal, ficou-se á espreita, na expectativa egoísta de que os operários alemães não cederiam, ficassem descalços e a produção caísse em Palmela pelos baixos salários portugueses. Temos aí o efeito de ricochete. Se os ambicionados aumentos salariais (sem dúvida, justos e merecidos) pretendidos pelos trabalhadores de Palmela vingassem, a Auto Europa, diz o patronato, perde as suas “vantagens competitivas” não perante o mercado mas perante as outras filiais do grupo.

Está armada a tenda. Para mais, com o acrescento de uma crise na representatividade operária. Trabalhadores a negarem o pré-acordo defendido pela Comissão de Trabalhadores. Sindicatos à bulha uns com os outros. Conflitos de legitimidade de representação negocial entre a Comissão de Trabalhadores e os Sindicatos. E, como se isto não bastasse, um estúpido de um ministro da Economia a intrometer-se e a aumentar o granel e a incrementar a chantagem patronal, como se fosse decente tomar partido no conflito laboral.

O caso da Auto Europa demonstra a fragilidade da movimentação e organização operária perante a forma como os grandes empresários, sem pátria e cada vez mais voláteis na ligação às empresas (a que muitas vezes só os prende os momentos altos da cotação bolsista), gerem os efeitos da globalização, maximizando lucros ao momento. Enquanto as grandes empresas e as grandes marcas pensam mundial, os sindicatozinhos pensam em escala caseira, em cultura de chafarica. Depois, resta-lhes ceder ou ver levantar a tenda. E um dia destes, alguém me há-de explicar o que é e para que serve essa coisa da CES – Confederação Europeia dos Sindicatos (de que fazem parte a UGT e a CGTP).
publicado por João Tunes às 12:01
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1 comentário:
De macsilva a 21 de Dezembro de 2005 às 12:55
O que é interessante na globalização capitalista sem barreiras (porque a globalização, ainda que com barreiras, foi sempre o apanágio do capitalismo) é a dependência dos governos em relações às grandes multinacionais. Antigamente, quando havia barreiras, as empresas subornavam os governos para se estabelecerem e poderem usufruir das chamadas vantagens competitivas (baixíssimos salários e outras benesses associadas, como a degradação ambiental, etc.); de há uns anos para cá são os governos que subornam as empresas para se estabelecerem, concedendo-lhes, para além das antigas benesses, ainda mais benesses, sob a forma de novos incentivos (isencão de impostos, comparticipação no investimento a fundo perdido, etc.).
A concentração e centralização do capital, associadas às grandes possibilidades de mobilidade, tornou os capitalistas nacionais numa caricatura, por impotentes, e coloca os trabalhadores perante o velho dilema da concorrência, agora não em relação aos "amarelos" nacionais, mas em relação aos seus congéneres do mesmo espaço económico (a Europa ou o Mundo).
Os trabalhadores parece que não se aperceberam suficientemente destas transformações, e continuam a negociar localmente, por vezes fora dos sindicatos (como agora, através da comissão de trabalhadores...); e uns sindicatos persistem, como aqueles, a fecharem-se no seu mundo nacional (caso da CGTP), porque o seu projecto não é a regulação dos salários e a conquista de benefícios para os seus representados, mas a transformação social radical.
Ora, para estes propósitos revolucionários, o contentamento e a satisfação das reivindicações não é o melhor meio, pois quanto maior o descontentamento maiores as possibilidades para a abertura das crises revolucionárias. Daí que a CGTP, pese embora a justiça de muitas das suas reivindicações, nunca tenha assinado qualquer acordo de concertação social, demitindo-se, na prática, da sua verdadeira função de representação económica dos trabalhadores.
Para além do mais, trabalhadores e sindicatos parecem não se ter apercebido que tempos de crise económica não são os mais propícios à conquista de grandes reivindicações.
A intromissão do governo neste assunto, descarada e com a falta de jeito característica desta amostra de ministro que é o Manuel Pinho, também não surpreende, sabendo-se os impactos negativos que o encerramento da Auto-Europa acarretaria para a economia do país e para a estabilidade política (aumento do desemprego, quebra das exportações e encerramento de muitas outras empresas fornecedoras daquela, etc.).
Neste quadro, é caso para dizer que todos (trabalhadores, sindicatos e governo) não têm grande juízo e que é tempo dos sindicatos se começarem a entender para ultrapassarem as divergências de interesses entre os trabalhadores de um mesmo patrão.
macsilva.


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