Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005

MUTILADAS E OFENDIDAS

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O Eugénio Costa Almeida levantou, e muito bem, a sua voz contra a barbaridade da prática da mutilação genital feminina que agride, física, psicológica e culturalmente, 6.000 meninas por dia em todo o mundo.
[Do ponto de vista cultural, o nosso eurocentrismo judaico-cristão ainda tem dificuldade em lidar com esta realidade, tanto que ainda é vulgar falar-se - pudicamente? condescendentemente? - de “excisão” quando se trata de uma realíssima mutilação.]

Para se entender melhor os aspectos desta prática tradicional bárbara (usada sobretudo entre populações islamizadas), recomendo a leitura do trabalho de Mafalda Santos e Paulo Matos (licenciados em Comunicação Social e pós-graduados em Criminologia) apresentado na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e disponível aqui.

Este trabalho inclui uma interessante entrevista com o Prof. Jorge Cabral (advogado, professor universitário e director do Instituto de Criminologia da mesma Universidade). Este académico fez a guerra colonial, como alferes miliciano, na Guiné-Bissau. E, então, teve a oportunidade de, coisa raríssima entre homens, assistir a uma cerimónia de mutilação genital feminina. Transcrevemos um excerto dessa entrevista:

- Qual foi o tipo de excisão a que assistiu?
- Foi a mais simples, foi a ablação do clítoris.

- Em que condições foi feita?
- As condições eram más... mas estavam várias miúdas para fazer a cerimónia. A cerimónia só tinha mulheres, a rapariga... era uma miudita de onze anos talvez... estava amarrada, era evidente que gritava, gritava bastante e era uma mulher mais velha que fez o corte para a ablação do clítoris.

- Com que objecto?
- Com uma faca e sem quaisquer condições de higiene, aliás, como era feita a circuncisão dos miúdos. Era feita com uma faca ou com uma lâmina.

- Como é que foi feita a abordagem, como é que se proporcionou a hipótese de ver uma excisão?
- Eu estava numa situação muito privilegiada, primeiro porque eu era chefe daquilo tudo, segundo porque estava só com soldados africanos e com população africana, cada soldado tinha as suas três mulheres, não sei quantos filhos, de maneira que eu era, pelo menos a um nível simbólico, uma espécie de chefe. Nesse sentido, por curiosidade, falei com mulheres, não falei com homens, e disse que estaria interessado. Primeiro negaram, disseram que os homens não podiam assistir e eu lá expliquei, lá entreguei dinheiro e lá consegui. A cerimónia não é feita na aldeia, é feita fora da aldeia.

- Porquê?
- Porque mesmo entre eles é dotado de algum secretismo, é uma cerimónia que tem alguma coisa de religioso por isso mesmo não é feita na aldeia, é feita na floresta. A rapariga não sabia como era. Há simultaneamente medo mas algum orgulho porque significa uma passagem para uma idade adulta, por isso há essa duplicidade, penso eu, ao nível das miúdas que têm medo, é evidente, porque as outras também já contaram como foi e que vão sofrer muito, mas ao mesmo tempo... se calhar é como usar o primeiro sutiã. Há efectivamente um certo orgulho.

- Qual é a posição dos homens em relação à excisão?
- Os homens concordam até porque eles não aceitam para mulher alguém que não seja excisada. Dentro da própria comunidade uma rapariga que não tenha passado pela excisão, dificilmente arranjará marido. Uma rapariga que não tenha feito a excisão é uma criança por isso elas submetem-se para evitarem a exclusão. Não podemos generalizar e falar da mulher africana porque mesmo na Guiné não são todas as etnias que fazem a excisão. Normalmente são os islamizados. Há excisões muito mais gravosas principalmente na Somália, na Etiópia. Há outro tipo de excisão, já agora. É uma excisão que se faz em Angola, eu ainda estou a começar a estudar isso, é uma excisão ao contrário, serve para mulher ter mais prazer durante o acto sexual. Ainda não vi nada disso escrito, li isso num romance. Já perguntei a várias angolanas e elas não sabem nada mas é uma excisão para dar mais prazer à mulher, não é como a outra. Não é a ablação do clítoris, é como um “desembaraçar” do clítoris e também é feita na pré-adolescência, aos 12, 13 anos.

- A maior parte das pessoas é contra esta prática porque é uma violação dos direitos humanos...
- Sim, embora isso hoje seja muito discutível. Há uma posição radical que diz que isto ofende os direitos humanos mas há vozes autorizadas que a defendem e eu já tive a oportunidade de assistir a uma conferência, creio que há três anos, em Valência, em que um professor dizia “O que é que nós temos a ver com isso?! Isso é um valor cultural, porque é que nós estamos sempre a ver de uma perspectiva europeia, europocêntrica o problema?”. Por isso há vozes que discordam desta luta contra a mutilação sexual.

- Mas hoje em dia há organizações e outras pessoas que trabalham no terreno, no sentido de dissuadirem as mulheres a praticar este tipo de ritual.
- Pode ter o efeito contrário, não é?!, se é proibido...

- O isolamento destas tribos torna muito mais difícil o acesso a qualquer alteração na mentalidade destas pessoas?
- Será muito difícil. Se nós defendêssemos sempre os mesmo valores culturais não havia evolução. É precisamente a mesma coisa, os chineses partiam os pés às crianças, os aztecas apertavam os olhos, o meu avô tomava banho uma vez por mês... quer dizer esses são valores culturais. As coisas alteram-se.
publicado por João Tunes às 12:36
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