Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005

É NATAL

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Vulgar é que os corações se derretam de humanidade (muitas vezes, enfeitada de caridade) nesta época. Lembram-se os pobres e desvalidos, os homens, as mulheres e as crianças sem teto, sem roupa, sem brinquedos e sem pão. Grande parte de nós outros que temos as mesas cheias demais, nunca conseguindo comer tudo que metemos em cima da mesa, tanto que até enjoamos a comida e a bebida, que nos juntamos aos magotes familiares, trocamos prendas e ficamos mais ternos uns com os outros, sentimo-nos mal com este excesso de pico de abastança e de calor humano, costumamos pensar, em flagelação à consciência (à boa), nos (felizmente para o nossos sossego – anónimos) que estão fora de nossas portas, ao frio e na míngua. Então, esmolamos, ajudamos a um “natal melhor”. O natal é, assim, o melhor de nós e o pior da representação hipócrita deste cristianismo de barriga cheia e caridade a escorrer uns pingos do bolso.

Não sou mais nem melhor que os outros. Alinho na parada, pelo menos para evitar o incómodo de destoar. E se tantos dão bacalhau aos “pobrezinhos”, umas roupinhas - que já não usamos - às “criancinhas”, mais umas esmolinhas para as consoadas desvalidas, permita-se que me lembre de carenciados de outras carências. Tendo o atrevimento de achar que o bem maior, aquele que pode ajudar a compor barrigas com dignidade e com futuro, é a liberdade, onde quer que ela não se respire. E que, repartindo tarefas na solidariedade, fique com o modesto quinhão de pensar nos oprimidos, nos carentes da liberdade de deitarem a alma para fora, exprimirem-se sobre o que acham bem e acham mal.

Escolho, para este natal, pensar nas “Damas de Blanco” da distante Cuba, submetida a uma terrível “ditadura tropical”. Esse grupo de mulheres cubanas, esposas, mães, filhas, irmãs, de prisioneiros de consciência, dos 75 dissidentes aprisionados (um punhado deles, foi entretanto remetido ao exílio), por pensarem e dizerem diferente, desde a primavera de 2003. A quem o Parlamento Europeu atribuiu, este ano, o “Prémio Sakharov” da luta pela Liberdade de Consciência. Mandando abraços calorosos a Laura Pollán (esposa de Héctor Maseda), Miriam Leiva, (esposa de Osear Espinosa Chepe), Berta Soler (esposa de Ángel Moya), Loyda Valdês (esposa de Alfredo Felipe Fuentes) e Julia Núftez (esposa de Adolfo Fernández Saínz), as cinco familiares dos presos políticos cubanos que foram mandatadas para este mês se deslocarem a Estrasburgo para receberem o prémio das mãos do Presidente do Parlamento Europeu e a quem a ditadura castrista recusou visto de saída de Cuba. Aprisionam-lhes os familiares, impedem-nas de saírem de Cuba, mas não conseguem proibir o Prémio e o seu significado (ele foi recebido, em nome das “Damas de Blanco” por uma sua membro fundadora – Blanca Reys, mulher de Raul Rivero, jornalista e poeta a quem Fidel deixou que trocasse a prisão pelo exilo em Espanha). Nem a solidariedade daqueles que, respirando a liberdade, usando-a, acham que este bem precioso não é privilégio de alguns países e povos, sendo, devendo ser, um bem universal e fundamental. Como o bacalhau, as roupinhas, os brinquedos e a esmola para os desvalidos de bens materiais.
publicado por João Tunes às 18:45
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