Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2006

NEM SEMPRE BRANDOS COSTUMES NO NOSSO ESTAR EM ÁFRICA

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“Recordo os dois jovens irmãos cuja captura testemunhei em Ingoré, suponho que para lá da fronteira, dentro do Senegal, numa das patrulhas que a minha Companhia fez. Recusaram-se ou não sabiam falar Português ou Crioulo, apenas francês que, julgo, ninguém do comando sabia o suficiente para os entender. O mais velho foi metido numa masmorra com a sua altura, dois metros de comprido por um de largo (vergonha nossa). Tinha apenas uma janela, com chapa em lugar de vidros, por onde entrou e depois se fechou.”

”Assim ficou no escuro alguns dias à espera de ser enviado para Bissau como turra. Apenas via a luz do sol, quando lhe levavam comida, duas vezes ao dia. Para as necessidades fisiológicas, um balde, que lhe possibilitava uns momentos de luz e ar ao ir despejá-lo à retrete, dia sim, dia não. Até que, cansado de tanto sofrer tentou a sua sorte. Quando lhe foram levar comida, atirou-lhes com o conteúdo do balde à cara. Era a última esperança. Liberdade ou morte. Esta vida, não... Foi barbaramente assassinado pelo Cabo S... com um tiro na boca, dentro da masmorra, momentos depois.”

[“O Cabo S... acompanhava o soldado que levava comida ao prisioneiro. Iam desarmados, pois a janela estava alta e não era fácil sair.
Os dois apanharam com a penicada e o S... foi buscar a G-3 e disse mais ou menos isto:
- Não queres comer ? Vais comer de qualquer maneira!...
Apontou-lhe a arma à boca e disparou. Creio que o prisioneiro queria dizer qualquer coisa, mas ficou engasgado mortalmente com a bala.”]


”O Cabo S... regressou a Lisboa, passado um mês com a sua Companhia. Não houve processo, inquérito. Tudo tão natural. Aconteceu... Eu estava lá a cinco metros. Suponho que no relatório oficial da sua morte, se o houve, devia constar "morto ao tentar fugir".”

”O irmão, mais novo (17 anos), não cabia na masmorra. Ficou junto ao refeitório amarrado e guardado por dois soldados, até ir habitar o lugar que seu irmão deixou vago.”

”Tratei-o de um furúnculo que tinha no peito. Tive oportunidade de conversar algumas vezes com ele em francês. Criei alguma relação de amizade e cumplicidade. Continuei a visitá-lo a pretexto do tratamento. Nas conversas que tivemos confrontei-me com um jovem que tinha bases académicas avançadas para um jovem aldeão do interior da Guiné. As conversas que tivemos sobre vários temas, no meu parco francês confundiram-me.”

”Comecei por ver nele um possível IN que merecia ser tratado como pessoa, pois estava doente. Com o desenrolar dos contactos, comecei a gostar de conversar com ele. Foi como que uma realidade nova para os meus dois meses de Guiné, alguém que se afirma cidadão do Senegal, que rejeita a guerra e não sabe porque foi preso, pois ia para a sua bolanha no Senegal trabalhar com o irmão. Mas alguém que demonstra conhecimentos de geografia e história.”

”Isto tudo me leva hoje a acreditar na sua versão de estudante em Dakar – Senegal, a passar férias na aldeia. Foi ocupar a masmorra que o irmão deixara livre depois de ser assassinado. Acompanhei-o até à prisão. Despedimo-nos com um caloroso aperto de mão, como sempre o fazíamos quando a pretexto de "dar mezinho ao prisioneiro" o ia visitar. Uma lágrima teimosa percorreu a minha face, o coração comprimui-se. Não tive a coragem de lhe dizer o que aconteceu ao irmão.”

”No dia seguinte a masmorra estava aberta. Julgo que o levaram para Bissau para ser interrogado pela Pide.”

José Teixeira
(ex-combatente na Guiné - 1968/70) (narrado aqui)
publicado por João Tunes às 15:45
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