Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2006

POR VEZES, RALHAR É PRECISO

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Na última vez que estive a almoçar (partilhando outras boas companhias) com a minha irmã Guida, esbanjando os juros acumulados da minha má e injusta fama de rezingão, fartei-me de ralhar com ela. Tinha que ser. Que ela andava arredia, merda de preguiça, que é que é isso mulher, passam-se semanas em que não metemos olho nos teus bons textos, apurados poemas e ainda melhores imagens, patati e patátá, vê lá se ligas à gente, um(a) blogger tem direitos e deveres, olha que o suor da escrita apura-a, etc e tal. E a mana desculpou-se, ai que ando muito ocupada, a idade pesa, os meus voluntariados pesam-me nas costas, sabes lá, patati e patátá, etc e tal.

Fomos assim, fingindo descomposturas e desculpas, corredores de Metro dentro, com uma enorme ternura de dois corpos lado a lado a acartarem o melhor das nossas almas, falas cruzadas a atropelarem-se, numa irmandade de timidez disfarçada, sabendo, cada qual, que os nossos abraços terão de ser sempre rápidos porque se deixássemos que os sentimentos mandassem, ali ficávamos, perdidos num corredor do Metro, abraçados um ao outro e a recuperar os abraços em débito pelos quarenta anos passados desde que, sem irmos ao notário, ao regedor ou ao padre, nos tornámos amigos-irmãos e selámos essa condição, como marca de um tempo e de uma juventude, na única noite em que "dormimos juntos” (foi na Prisão de Caxias, 1965 era o ano, levados pela Pide, ela na cela de cima – prisão das mulheres -, eu na cela de baixo – prisão para homens-, com os carcereiros a vigiarem-nos os ímpetos juvenis pela liberdade, mal sabendo que, com isso, eu e a Guida, subíamos da condição de jovens camaradas até à de velhos irmãos).

Pelos vistos - a hora é de bazófia - o puxão de orelhas à mana resultou em pleno. Acordou o raio da moça. E trouxe, com uma beleza que me envaidece, olhares únicos, genuínos, sobre duas ternuras que partilhamos sem que fossem combinadas – o Alentejo e Lisboa.

Obrigado mana. Para a próxima, mais te vou dar na cabeça. Só porque, pelas provas dos teus blogo-regressos, a mezinha da minha descompostura resulta mesmo. E prepara-te, porque um dia destes, quem sabe, dá-me a "veneta" e afogo-te mesmo com o abraço do tamanho do mundo que ainda me falta dar-te.

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publicado por João Tunes às 23:25
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3 comentários:
De Ana a 12 de Janeiro de 2006 às 21:30
João, não sei se posso acreditar nisso.
Eu acho que, em matéria de ternura, quanto mais damos, mais nos cresce no peito. Nunca seca.
E se não damos e depois falta a ocasião ?


De Joo a 6 de Janeiro de 2006 às 20:14
Olhe que não, Ana, olhe que não. O maior de todos os abraços nunca se deve dar. Porque depois de dado, fica-nos a faltar para o poder dar. E, então, secamos. Obrigado pela ternura da sua amizade.


De Ana a 5 de Janeiro de 2006 às 10:34
João Tunes, assim fica difícil, e olhe que eu não sou de lágrima fácil, faço-me dura quando posso.
Apresse-se lá a dar à Guida esse abração do tamanho do mundo que, certamente, os dois merecem e essas coisas não podem ser adiadas. O tempo foge-nos rápido, rápido, não deixemos mais nada para depois, pelo sim, pelo não.


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