Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2006

A MORTE NO FEITIÇO DO IMPÉRIO


Antes era o roubo. A partir do massacre da Baixa do Cassange, roubo e morte juntaram-se no menu colonial.

Na Baixa do Cassange (província angolana de Malanje), a 4 de Janeiro de 1961, iniciou-se uma feroz repressão militar contra os trabalhadores agrícolas ao serviço da Companhia de Algodão “Cotonang” que se revoltaram, exigindo melhores condições de trabalho e o fim dos trabalhos forçados.

Para a repressão, foi organizado o Batalhão Eventual de Malanje, composto pelas 3ª, 4ª e 5ª Companhias de Caçadores Especiais. As acções de infantaria foram apoiadas em meios aéreos – pequenos aviões de reconhecimento que aproveitavam os voos para despejarem granadas de mão sobre os africanos e PV-2 que despejaram toneladas de bombas de napalm sobre a zona revoltada, matando e queimando através do fósforo incandescente (na altura, o uso do napalm já tinha sido proibido por convenções internacionais).

Tratou-se da primeira grande operação da guerra colonial. E a primeira grande demonstração da bestialidade repressiva colonial como sendo a única resposta admitida por Salazar aos anseios de emancipação das populações africanas. O tom estava dado – bombas e morte seriam o falar colonial para com as vontades africanas que não aceitassem as bandeiras de domínio, do saque e da subjugação. No terreno, na Baixa de Cassange, quando a tropa colonial fez o rescaldo da operação “vitoriosa”, havia dez mil cadáveres de africanos a indicarem aos outros africanos, os vivos e os colonizados, que só também pela bomba e pela morte podiam aspirar à dignidade. E assim foi, de parte a parte, durante mais treze anos. Começámos a matar-nos na Baixa do Cassange, depois continuámos a fazê-lo no resto de Angola, seguiu-se Guiné e Moçambique, e só parámos de usar a linguagem da morte em África em Abril de 1974. E, assim, a “vitória portuguesa” na Baixa do Cassange no princípio de 1961 acabou, depois de inúmeros e horríveis custos para a juventude portuguesa e para os africanos colonizados, por desaguar numa derrota em toda a linha e em todas as frentes, incluindo aquelas em que não se disparou um tiro.

O governo angolano instituiu a data de 4 de Janeiro como um feriado nacional sob a designação de "Dia dos Mártires da Repressão Colonial". Nas referências históricas portuguesas, os acontecimentos de 1961 na Baixa do Cassange são muito recentes e ainda de conhecimento incipiente (veja-se, como exemplo, o “relevo” que a comunicação social portuguesa deu ontem aos 45 anos passados sobre este acontecimento). Isso deve-se sobretudo ao secretismo com que as autoridades coloniais quiseram abafar a existência deste massacre, sobretudo devido ao número de vítimas civis e pelo uso intensivo do napalm. E daí que muitas referências históricas sobre a guerra colonial ainda continuem a indicar como primeiro facto relevante os motins em Luanda de 4 de Fevereiro desse ano e os posteriores massacres da UPA no norte de Angola e a repressão de resposta dos colonos e da tropa portuguesa. Mas, de facto, o massacre da Baixa de Cassange, pela sua dimensão e efeito psicológico e de revolta, é o primeiro dado de relevo no arranque da guerra colonial como guerra destinada pelo governo de Portugal a terminar em vitória ou em extermínio. Não foi uma coisa nem outra, mas que preço (!) foi pago devido à cegueira dos que acreditaram na razão da força.
publicado por João Tunes às 17:06
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3 comentários:
De Marco Oliveira a 6 de Janeiro de 2006 às 09:40
Obrigado pelo post, João.
Esta efeméride passou despercebida... Não vi nenhuma reportagem sobre isto na TV.


De Piti a 6 de Janeiro de 2006 às 03:32
Não esquecer que o piloto de um desses aviões foi o angolano Iko Carreira...


De IO a 5 de Janeiro de 2006 às 17:23
Dois excelentes 'posts' sobre uma História que é comum a todos os que falam a Língua Portuguesa, este e o anterior. Obrigada por a divulgares, IO.


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