Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2006

ADEUS ADRIÃO, ADEUS RACISMO (1)

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Foi-se da vida um desportista de talento genial. Foi meu ídolo infantil e juvenil (e julgo que de muitos mais), nas muitas horas gastas de ouvido colado ao rádio a partilhar façanhas lusas em que o clímax era, quase invariavelmente, o “goooooolo de Adrião!”.

Pois, Fernando Adrião, cujo talento só foi suplantado, até hoje, por outro génio do hóquei também já desaparecido (Livramento), lá se foi. No seu talento genial, Adrião fez, por gosto ou a contragosto, parte de um dos paradoxos racistas de maior sucesso e dos mais medonhos exemplos do tempo do império colonial. A elite branca do apartheid moçambicano apreciava o hóquei em patins e preservava-o como seu desporto de elite (o preço dos equipamentos assegurava a separação de águas, ou de cores). Mas os hoquistas moçambicanos brancos eram mesmo bons naquelas artes desportivas (como noutras, e o basquete que o diga) e tanto que a Federação entendeu que o maior sucesso seria vestir as cores da selecção nacional à equipa moçambicana e não estragar a “pomada” com mais misturas. Boa foi a aposta e tanto que essa representação acumulou êxitos e títulos a fio. O que, historicamente, não limpa uma pinga dessa vergonha da evidência racista do regime que aquela selecção também representava - uma equipa pouco "moçambicana", antes uma selecção de talentos colhidos na nata colonial plantada á beira do Índico (uma equipa de brancos em que a esmagadora maioria negra não tinha cabidela).

Eram assim os tempos nossos e de Fernando Adrião. Onde sobrenadou este talento ímpar e uma glória maior do nosso desporto. Curvo-me, portanto, na homenagem que lhe é devida e merecida.

Adenda: Obviamente que é difícil conversar, nos pressupostos aqui assumidos, com um qualquer colono, da banda que seja ou queira ser. Há uma tragédia por trás, deles, também minha pois me mandaram combater para os defender. Reconheço que dizer-se, como aqui disse, “a elite branca do apartheid moçambicano” é uma expressão eventualmente redutora pelo efeito de aglutinação uniformista do mundo dominante. Eu sei que havia colonos muito ricos, ricos e até pobres (na escala infra-colonos). Como sei que, de forma geral, os “mais de baixo” eram mais brutais que “os de cima” a exercerem a barbaridade racista. E, politicamente, havia Jardim e Almeida Santos, etc e tal. Mas a minha visão de apreciação do mundo colonial, por economia e por sentido de justiça, tende a reduzir estas precisões a um preciosismo de escala própria dentro do mesmo pequeno universo (o dos dominadores). Porque, na escala real da sociedade colonial africana, a representativa, o colono mais pobre era sempre opressor, mais rico, relativamente à massa negra. Se, por exemplo, havia sapateiros portugueses e brancos pobres em Moçambique era porque aos negros não se dava sequer acesso a esse patamar mínimo de evolução social, numa terra que, para ser moçambicana, só podia ser de todos os moçambicanos (por isso é que Moçambique, como Moçambique, existe apenas desde 1974). Fiz aqui a minha homenagem sentida a Fernando Adrião [o impulso foi saudar na hora de despedida um dos meus ídolos desportivos de infância e juventude sem que cometesse a alarvice apaixonadamente sectária de não reconhecer que “outros” existiram e que ele, Adrião, como praticante, não chegou, por exemplo, aos calcanhares dos patins de um dos pés do “maior” da modalidade – Livramento]. Um dia, fica hipótese para uma tese académica, será curioso estudar porque é que a mais racista de todas as sociedades coloniais construídas pelos portugueses (Moçambique) gerou, no campo desportivo, o fenómeno de evidência e fama mundial de talentos de atletas negros ou, vá lá, mestiços (Eusébio, Coluna, Vicente, outros) no futebol (grande excepção: Costa Pereira e quem mais?), enquanto no basket e no hóquei havia o “costume sul-africano” de restringir a sua prática a atletas brancos. Não terá funcionado o critério social que futebol é coisa de desclassificados, malta que joga com os pés e aos pontapés, enquanto bola num cesto ou bolinha empurrada com stick já é coisa mais sofisticada e mais resguardada de mesclas sociais? Fica o desafio, enquanto falece a pachorra para aturar sindromas pós-traumáticos de colonos mal descolonizados.
publicado por João Tunes às 00:09
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3 comentários:
De IO a 13 de Janeiro de 2006 às 12:08
e já lá fui responder-te, vai ver!!, abraço, glú-glú!!


De qu a 12 de Janeiro de 2006 às 23:25
quá, mim leu teu post, quá, quá...


De IO a 12 de Janeiro de 2006 às 12:56
Quando eu nasci, era assim. Em hóquei em patins, a Selecção de Moçambique era o ouro do (falido) império lusitano.

Em 2004, o campeão Adrião regressou à terra onde começou a patinar e o Moçambique independente homenageou-o.

Abraço, uma miúda que cresceu a aplaudi-lo.


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