Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2006

CONVERSANDO COM O CORAÇÃO QUENTE

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O bloganço tem disto – sem saber como nem porquê, tropeça-se num amigo (velho amigo, acrescento em redundância). No caso, não num amigo qualquer, mas um especial. Muito especial. E por aqui me fico por entender que a haver confidências, elas devem ser não só partilhadas como consentidas.

[Direi, apenas, que fomos “criados” juntos, na dura afirmação da irreverência juvenil que procurava romper a noite salazarenta que tornava o Porto das nossas andanças estudantis ainda mais escuro que o seu granito de Dezembro esculpido pelas chuvas. E nós, putos destinados á irreverência, a querermos namorar moças em que o muito apetite era sempre curto para tanto esplendor. E teimando, para mais, sermos livres e querermos liberdade. E apanhámos para o tabaco, por esse crime duplo para a época – namorar e ser livres. Porque a “Rua do Heroísmo” estava, então, sempre ali perto.]

O Zé deu-me sinal aqui e, depois, apanhei-o no seu blogo-poiso, falando sobre o 3º volume da biografia política de Álvaro Cunhal da autoria de José Pacheco Pereira. E não desperdicei a oportunidade de conversar com o Zé, como se o tempo desandasse, voltando os dois a cirandar na Rua da Cedofeita acima e abaixo, queimando cigarros, espreitando moças bonitas (sempre que me lembro do Porto, sei lá porquê, vem-me à ideia que o Porto é a cidade que conheci com maior densidade de mulheres bonitas) e falando:

“Caro Zé, vou fazer de conta que não te conheço de lado algum (a alegria de te re-encontrar fica para outra ocasião, mais solene) para, se me permites fazer algumas observações a este teu post. E umas tantas precisões (a opinião não dispensa, pelo contrário, o rigor).”
”Um dos engulhos grandes da “nomenklatura imobilista” é que uma parte importante do conteúdo do 3º volume da obra de JPP contou com a colaboração activa de Jaime Serra (que, aliás, a validou com a sua presença pessoal, mais da sua companheira Laura, no lançamento deste volume). E contou ainda com contributos importantes dos “diários partidários” de Aboim Inglês e Octávio Pato, ambos já falecidos (por terem ido parar à Pide nas apreensões de materiais quando das suas prisões) e que, pelo facto de estarem arquivados na Pide, mas escritos pelos seus punhos, em nada perdem a autenticidade. Dias Lourenço, muito citado, ainda não levantou voz a desmentir JPP. Só Vilarigues (pai) falou em “atentado à memória de Álvaro” sem concretizar o que desmente, apenas tentando desqualificar moral e politicamente JPP perante Cunhal (o que é curto, quando se trata de desmentir um historiador). E, depois, veio o Vilarigues (filho) a dar prova, compreensível ao nível das emoções, de partilha filial com a indignação generalista de sinal paterno. Mas quer uma quer outra indignação - a de Vilarigues (pai) e a de Vilarigues (filho), porque nada acrescentam “aos autos”, ficando-se pela superioridade de proximidade paterna com Cunhal que, se são atitudes de respeitável solidariedade paterno-filial, deviam ser apenas motivo para um recatado serão familiar. Casanova vai na mesma onda, mas esse é o seu mister diário à frente do actual “Avante” – demonstrar que o jornal que dirige nada tem a ver com o materialismo histórico e, por sobradas razões, com o materialismo dialéctico (uma e outra, insignificantes na actual vida do PCP, em que ser-se comunista é “estar com o Jerónimo”, o que é, convenhamos, o mais baixo “qb” de se ser comunista).”
”Quanto ao 4º volume prometido da biografia política de JPP sobre Cunhal, ela tem um prazo temporal marcado que não vai além do 25 de Abril de 1974. O 3º volume termina em 1960 e na fuga de Peniche. O 4º volume vai tratar de todo o rico e intenso período (afinal, o que, geracionalmente, mais me interessa, nos interessa) em que Cunhal se consagra como dirigente máximo e incontestado do PCP, arruma Fogaça (que bem merecia ser arrumado, mas politicamente e não pelo miserável pretexto de levar no cú), trava e inverte o “desvio de direita”, depois arruma o Chico Martins Rodrigues (que mereceia melhor arrumo que o de “ter-se apoderado de uma máquina de escrever que era propriedade do Partido”) pelo “desvio esquerdista” (que, afinal, foi um sintoma do ascenso de luta em 1962), culminando no “Rumo à Vitória” e no VI Congresso em Kiev que dariam, definitivamente, o cunho (cunhalista) monolítico ao PCP. E esse cunho foi obra de um génio político (Cunhal), para o bem e para o mal, com luzes e sombras, cuja maior fragilidade é ter inviabilizado uma sucessão à sua altura ou proximidade, tendo, antes, degenerado até este deprimente e mediático resultado (pelos vistos, com margem de sucesso) de um bailarino-fadista-beijoqueiro-comunicador que, como SG, arrasta o PCP para o destino de um aglomerado populista-eleitoral.”
”Julgo que exactamente para fugir a esses escolhos que referes – o da "luta politica e partidária”, JPP sempre assumiu que não falaria, nesta obra, do Cunhal político depois do 25 de Abril. E isso é mais um crédito a seu favor.”
”Como deduzirás, do ponto de vista político, menos ainda se formos para o campo partidário, JPP será das últimas pessoas com quem tive, tenho e terei afinidades (cruzes, canhoto). Mas, infelizmente (!!!) e o destino assim o quis (pelo abandono antigo do PCP perante a verdade histórica), a história possível e acessível do PCP é a feita pelo JPP e pouco mais. Porque aquilo que o PCP oferece, oficialmente, mesmo aos seus militantes, quanto ao seu passado, é a verdade e a mentira (mormente pelas manchas brancas dos silêncios da censura dos factos "inconvenientes") servidas na propaganda que nos acabam por fartar porque nunca sabemos onde acaba uma e começa a outra.”
publicado por João Tunes às 23:14
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1 comentário:
De jos Albergaria a 15 de Fevereiro de 2006 às 15:33
Meu Caro João,

Em primeirissimo lugar: desculpa só te ter lido agora. Perdi-te o rasto na blogsfera e tenho andado aperreado com afazeres profissionais e uma aventura académica tardia (Português e História na Universidade Aberta).

Tenho matado saudades tuas nos teus belissimos post's (textos, sedutoras e incisivas imagens.) Mas do que, realmente, gostei foi da tua nota introdutória sobre o Porto (Cedofeita, acima e abaixo, cigarro ao canto da boca e das mulheres bonitas...Não tenham mesmo dúvidas: o Porto, nesses idos, era, sem sombra de pecado, a terra com mais mulherres bonitas por quarteirão de casario.)
Sobre o teu comentário aos livros do JPP - não posso estar mais de acordo.
Tinha o maior gosto a estar contigo: almoçar, falar, dedilhar memórias e não só...Falar das coisas presentes - também.
O meu telefone é o 969832974. O fico, do Centro de Ciência Viva da Amadora, onde trabalho é o
21 4930900. Se te aprouver - dá-me uma apitadela e combinamos qualquer coisa.
Até lá continuarei, com mesmo prazer de antanho a ler-te e a ver-te.

Um abraço grande,
Zé Albergaria


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