Terça-feira, 24 de Janeiro de 2006

INCONTORNÁVEL (1)

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É incontornável falar sobre o rescaldo das eleições, procurando olhar o futuro a partir da margem esquerda do rio. Até porque julgo que nos cabe a nós, os “alegretes” (sobretudo, os de circunstância), o ónus-beneficio de o poder e dever fazer. Porque a “esquerda jerónima” já desandou do pólo do eleitoralismo para o pólo do populismo, passou o testemunho à CGTP e retomou o facho anti-PS, contente de ter mais um lugar para improvisar “manifes” (provavelmente as próximas, com polícias, militares, professores, juízes e enfermeiros, a nata da classe operária, rumarão de frente a São Bento até ao largo fronteiriço ao Palácio de Belém). O Bloco lambe as feridas enquanto tenta perceber o que nunca vai entender - a essência da volatilidade do seu eleitorado. O respeitável e obeso aparelho socrático-soarista do PS “oficial” não vai perceber coisa alguma enquanto não decifrar o enigma maldito de Alegre e muito menos admitir que o “soarismo” já estava morto antes de ter de ser re-enterrado, tanto que se prestaram á representação obscena de passearem um mausoléu (político) para esconderem o alívio de verem Cavaco ganhar à primeira, poupando nos sobressaltos familiares.

Na “banda alegrete”, as coisas também não são fáceis e muito menos lineares. O conglomerado é vasto, diverso e com pulsões diversas e algumas eventualmente contraditórias. Há ajustes de contas infra-PS (pois há, e graças a eles, se deve o ter havido uma estrutura condutora da campanha, registe-se em seu abono, embora anárquica e desastrada, ingénua, romântica e amadorista). [O que só significa que o PS (militantes e eleitores) é mais, muito mais (haja deus!), que as “canadianas” que amparam Sócrates e o seu governo.] Mas o vasto eleitorado de Manuel Alegre, essa espécie de “maioria de esquerda silenciosa”, é mais que o “PS (m-a)” que nela se entranhou e estruturou a campanha, atamancando-lhe um “aparelho mínimo”. Sobretudo, inclui muitos estreantes e re-entrantes na actividade política, pessoas atraídas pelo exercício da cidadania, cansadas do controlo aparelhístico (do PS e de todas as outras “esquerdas”), ansiosas pela renovação arejada da esquerda, combatendo essa maldição vendida que a modernização da esquerda só pode ser feita pela via neo-liberal, anti-social, esquecendo o sonho, a cultura e o projecto. Da mesma forma, os que (há muito ou há pouco) perceberam que o revigoramento da esquerda não passa pelo retrocesso a Fidel Castro, Kim-Il-Sung e Hugo Chávez, nem o culto “fatimista” a um caudilho de pacotilha formado em gentilezas operárias de bailes de bombeiros ou na veneração basbaque perante um economista “pró-nobel” com espasmos de exorcismos evangélicos.

Manuel Alegre, pela vontade rebelde de o fazer e pelas circunstâncias particulares e partidárias que o levaram a candidatar-se, com enorme coragem e estoicismo, ao dar corpo e caminho a esta “convulsão alegrista”, heterogénea e enérgica (pelo menos, na afirmação da teimosia na recusa da canga), imensa se se atender ás circunstâncias e oportunidades, prestou um enorme contributo à redignificação da condição democrática, impedindo que o jogo eleitoral (fundamental no funcionamento democrático) fosse um jogo pré-marcado pelo pior que os partidos segregam como ganga de cultura e prática políticas. Ficará para a história. Dele, Alegre (um símbolo do estoicismo democrático). E nossa, seus apoiantes, os que acreditámos até ao fim e só parámos para desanimar e chorar quando vimos que morremos na praia.

O que fazer agora com este milhão e tal de votantes “rebeldes” que votaram por Alegre? Nada. Absolutamente nada. Sendo certo que cada militante pró-Alegre, e cada votante em Alegre, podem fazer “tudo” para melhorar o nosso estar democrático. Não desperdiçando esta convulsão cidadã de maior exigência política e de alimentar o direito a sonhar e a transformar. Não permitindo que calquem aos pés tantas bandeiras e tantas vontades. Ao contrário, levantando-as onde elas continuarem a fazer falta, cada qual com seu vento ou sua maré. Ocupando o espaço em que cada qual se sinta com direito a ocupar. Lembrando, aos “donos dos partidos”, que a política não tem donos e a cidadania muito menos.

É hora de desarmar a tenda do conglomerado imenso e nobre que levou Manuel Alegre até onde ele chegou, sabendo que se podia ir mais além. Insuflar este sobressalto em cada intervenção. No mínimo, não desperdiçar esta energia alegre de tornar cada cidadão em cidadão mais exigente, mais cidadão, menos abúlico, menos espectador, menos disponível a que sejam donos dos seus sonhos, do seu cartão de militante e … dos seus votos. Sobretudo, não desistindo de pensar que a democracia, se é plural (e só pode sê-lo) e partidária (pois claro!), nunca é obra acabada nem segmentável (em que a fatia gorda da economia e das finanças reduz a migalhas o viver cultural, social e cívico, pois é por isso, não pelo défice, que vivemos e queremos viver).

Se Manuel Alegre, com a mesma grandeza com que montou a tenda da rebeldia cidadã, souber desmontar a tenda do imenso conglomerado de cidadãos rebeldes e relapsos á canga dos aparelhos partidários, então este homem terá direito ao mérito suplementar e maior de ter permitido que, para tantos, a poesia rime com política, o canto com a luta, a esperança com o futuro. O que nos melhora como povo, retirando-nos o peso sinistro de nos vermos, uns aos outros, como agiotas concorrentes de um presente efémero.

Eu acredito em Manuel Alegre. Se ele, agora, me desiludir, o problema será dele. Não meu, porque o voto e a vontade não têm donos, como ele bem apregoou e a essa ideia deu corpo e bandeira. E os povos têm sempre um passado, um presente e um futuro, aproveitando-os ou não.
publicado por João Tunes às 17:08
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2 comentários:
De Alonso a 25 de Janeiro de 2006 às 10:18
Sem dúvida que foi essencialmente de esquerda a votação que o Alegre teve, o que é coerente com a própria identidade ideológica do candidato, mas parece-me redutor definir como "maioria de esquerda silenciosa" esse eleitorado. Para minha surpresa, vim a descobrir, já esta semana, muitos não esquerdistas que me disseram ter votado Alegre.

Concordo que a tenda deve ser desarmada, e não creio que o Alegre sofra de síndrome pós-eanista. A cada um dos eleitores que nele votaram fica a sua experiência pessoal de rebeldia e o que resta esperar é que a classe política entenda, ou vá entendendo, que o eleitorado não é só "caixa de ressonância" acrítica das suas escolhas. Pelo que deve escolher com mais cuidado.

É curioso que o Cavaco foi quem mais cedo e melhor entendeu isto. E creio que essa foi a chave da sua vitória.

Um abraço.


De macsilva a 24 de Janeiro de 2006 às 20:34
Que rebeldia representa Manuel Alegre? A rebeldia da luta contra políticas concretas do Governo? Que ideias base apresentou como orientações para o exercício do cargo a que se candidatava (para não falar em programa, que esse nenhum dos candidatos apresentou às massas)? Manuel Alegra, um homem fora do aparelho ou um homem do aparelho?
Na sua ânsia de encontrar albergue onde se acolherem, os líricos desiludidos, primeiro, com o PC, depois, com o PS, construiram com o ressabiamento de Alegre por não ter sido o escolhido pelo aparelho, preterido pela múmia, uma miragem de alternativa, que só o era para o lirismo da poesia.
Até hoje não conseguem digerir uma derrota por trinta pontos, julgando que apenas perderam por seis décimas...
Talvez tenha sido melhor assim, porque se houvesse segunda volta a derrota poderia ser ainda mais humilhante.
Acordem, ó gentes! O que Alegre representa é apenas uma miragem, a que a vossa nostalgia teima em ver no deserto da orfandade!


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