Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2006

O FOSSO DA INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO

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As disparidades endógenas que nos marcam (socialmente, culturalmente) são travões importantes à afirmação de um projecto nacional, distinguem-nos do resto da Europa, marcam o nosso impasse de atraso pelo bloqueio derivado dos nossos contrastes internos.

Já éramos “lanternas vermelhas” em muitos indicadores comparativos na escala europeia – na qualificação, no nível de vida, na produtividade, na desigualdade social. Até no optimismo relativamente ao futuro, estamos por baixo (pudera!).

Agora, o ranking da utilização da Internet em Portugal, comparativamente aos restantes países da UE, traz dados interessantíssimos (e a dar que pensar):

- Enquanto a média europeia de utilização da Internet pelos estudantes é de 85%, nós apresentamos o nível honroso de 91% (!), só ultrapassados pelos estudantes alemães, dinamarqueses e finlandeses. O que é sinal que, nas camadas jovens e escolarizadas, a massa estudantil portuguesa está muito bem “ligada em rede”.

- Na utilização global da Internet pelos portugueses, vêm as infra-disparidades (as maiores da Europa): 84% das pessoas com habilitações superiores ao 12º ano, usam a Internet, mas só 14% com habilitações inferiores ao 12º ano a usam.

- Entre a população reformada, os números são ainda mais dramáticos – só 3% dos portugueses reformados usam a Internet, contra 23% dos reformados alemães, 34% dos reformados dinamarqueses e 54% dos reformados holandeses.

Pensando no papel da Internet como fonte instantânea de informação, de conhecimentos e de comunicação e fonte de intervenção, fácil é deduzir como a população vive, digamos culturalmente, em tremenda diferença de ritmo e velocidade. Enquanto os jovens escolarizados com sucesso acertaram, e bem, o passo no uso das novas tecnologias, as camadas mais velhas e de menor escolarização mantêm-se fixadas no mundo pré-informático.

Claro que se percebe bem de onde estes fossos provêm. Mas a somar ás desigualdades sociais crescentes (a roçar o iníquo) entre os portugueses, arrastando o país para o atraso económico e a incapacidade competitiva, temos já um desfasamento brutal etário e pela escolarização que reverte em problemas graves de comunicação, até de linguagem e suporte informativo, tornando mais incapaz a comunicação entre uma camada madura e idosa que, quando lê, lê o “Record” ou o “24 Horas”, e uma camada jovem escolarizada cuja fonte principal (se não exclusiva) é a Internet.

Estes dados demonstram sucesso na difusão da Internet nas escolas e nos ambientes domésticos por pressão da massa jovem e estudantil. Mas comprovam o atavismo de uma população em caminho do envelhecimento e cada vez mais distante do mundo e … dos seus próprios jovens.

[Nos Centros de Dia para Idosos e Reformados, nos muitos que já existem pelo país fora e alguns bem equipados, há uma tendência para reproduzir, no usufruto do lazer, as formas mais serôdias das suas tradições conviviais e lúdicas. Por regra, organizam-se cantorias, bailaricos, fados, patuscadas e excursões. E quantos destes Centros se equipam com uma Biblioteca e um “ciber-café”?]

(com base em dados da “Eurostat” divulgados em artigo de Joaquim Fidalgo no “Público” de hoje)
publicado por João Tunes às 17:08
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4 comentários:
De a. cardoso a 27 de Janeiro de 2006 às 07:08
Claro que as outras actividades, devem continuar por importantes, mas de facto tambem o e, o acompanhamento das novas tecnologias, concordo plenamente que devia haver ciber cafes nos lares de idosos, talvez porque para la caminho (ou caminhamos).


De Ana a 25 de Janeiro de 2006 às 18:32
Os livros impressos são o vício antigo, a internet vai-se tornando outro vício, embora mais recente. João, meu caro, Vc. pensa "completo". Obrigada por isso e por partilhar esses pensamentos.


De Joo a 25 de Janeiro de 2006 às 17:52
Com certeza, Ana. Tanto de acordo que meti "Biblioteca" antes do "ciber-café"...


De Ana a 25 de Janeiro de 2006 às 17:26
Obrigada meu caro, por sugerir, com tanta e tão boa argumentação, que se equipem (para além das escolas, o que é importante), também os centros de convívio dos idosos, com meios de acesso à internet.
Eu, que para a bela 3ª Idade caminho, já não me imagino sem tal entretenimento e fonte de cultura, apesar de ainda gostar dos livros "à antiga", daqueles que se pegam com carinho, que se desfolham.


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