Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006

MANCEBO QUE QUERO ÁGUIA

Pedro.jpg

Quando lhes damos colo, procurando que se sintam bem no nosso colo, fazendo o melhor para que nunca lhes falte colo, pensamos que o mundo é maior que o mundo e do tamanho de um colo que gostaríamos que não tivesse fim. Imaginamos então a vida como infinita e que o finito da velhice pertence aos tropeços privados e longínquos dos velhos que cruzamos na vida quando somos novos. Umas vezes pensando em nós e por nós, noutras afugentamos o pânico de que o nosso colo falte a quem sentámos ao colo. E assumimos, prolongando-o, agarrando-o, o colo como condição.

O meu mais novo há muito que me saltou do colo. Está quase a dispensar colo de ninho para o substituir por colo de escolha, usando as suas asas de voar a vida. É bom vê-lo assim, a enfeitar e construir penas de asas fortes, preferindo-o ver treinar voo de águia real, mesmo com um ou outro trambolhão, que tê-lo, possessivamente, como pássaro debaixo de asa.

Hoje, ao Pedro, dei-lhe o último dos meus arremedos de colo, reduzido a um discreto aconchego de despedida para o seu voo adulto. Acompanhei-o a inscrever-se como mancebo no “recenseamento militar”. Ele está na maior, inaugurando-se como homem. Eu cá estou, numa mistura de orgulho em deixar a águia - a minha águia - voar e a certeza finita que não tenho mais colo para voltar a dar.
publicado por João Tunes às 23:15
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9 comentários:
De Susana Bs a 27 de Janeiro de 2006 às 22:45
Muito tocante, muito bonito. E, apesar de tudo, ainda colo.


De Pedro a 27 de Janeiro de 2006 às 21:53
Curioso o comentário do Marco. Só depois do recenseamento militar, o meu avô Zé me passou a falar de "comer gajas" e "foda-se!". Puro e duro. Garanto que é verdade.

Um grande abraço, compañero João.


De Marco Oliveira a 27 de Janeiro de 2006 às 16:38
Eu percebi que o meu avô reconheceu a minha "emancipação" quando concluí a tropa. Nessa altura, ele deixou de me tratar como um miúdo; era tratado igual a todos os outros adultos da família. E até as prendas de Natal passaram a ser iguais às dos adultos.


De Margarida a 27 de Janeiro de 2006 às 14:59
João, foi das coisas mais bonitas que já li. E olhe que leio muito... Perdoe-me este comentário parveco, que em nada tem a ver com o seu nível, mas não podia deixar de lhe manifestar o meu agrado profundo por este "Ensaio sobre o Colo Parental". Lindo.


De Guida Alves a 27 de Janeiro de 2006 às 14:58
Pois, querido amigo/irmão, já passei por isso duas vezes! O primeiro, o Manel, foi fazer a recruta em Abrantes (hotel*****) e teve direito a "bota fora" por parte da família e amigos, todos em Sta. Apolónia, bem divertida e animada.
O segundo, o Vasco, uns anos depois foi assentar praça na Carregueira, pertinho de casa, e cumpriu o tempo restante ainda mais perto, em S. Domingos de Benfica, para onde se deslocava diária e pontualmente de jeans esfarrapadas e com a sua cachorra de estimação pela trela.
Mas em ambos os casos houve sempre uma lagrimita teimosa ou um aperto na garganta... A gente ainda gostaria que fossem "os nossos meninos"...


De Lutz a 27 de Janeiro de 2006 às 14:49
Ainda não é a minha vez: o mais tem seis, o mais velho dezasseis. Mas já percebo, com alguma angustia, que também para mim, essa experiência não se faz esperar para muito mais tempo.


De M. Conceicao a 27 de Janeiro de 2006 às 11:33
No domingo, fartei-me de ter esses sentimentos em relação às minhas moças. É uma mistura de sentimentos muito forte. Gosto, medo, saudade, orgulho, alegria...
A maternidade e paternidade são, de facto, fabulosas


De Ana a 27 de Janeiro de 2006 às 10:20
Como eu compreendo o que diz e sente. Também já voaram do ninho os meus amados pássaros. O mais velho e o mais novo (esta nossa forma de dizer) !
Amados são sempre e desejosos de "colo", hão-de ser também, de vez em quando. De colo gosta-se durante toda a vida e o colo tem tantas formas.
Pode ser só umas palavras, pode ser só um sorriso, pode ser o par de braços que se abre na nossa direcção. Nos filhos, dizem que também nos netos, escamoteamos o nosso limite no tempo, a curta duração da nossa passagem.


De RN a 27 de Janeiro de 2006 às 00:46
Os filhos são a nossa continuação e assim salvam-nos da morte. Então o rapaz foi dar o nome! Agora se quiser cumprir o sm tem de se voluntariar.


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