Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2006

SOBRE A ALEGRIA ENDOGÂMICA DOS “jerónimos”

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Isto vai à laia de teses para dar patine, relembrar tempos e tornar o post mais arrumadinho. Então vá:

1. Nas eleições em que Jerónimo participou como SG do PCP, obteve resultados que indiciam recuperação de parte do seu eleitorado desanimado. E, desde que arrancou a fase “contra-revolucionária”, é o primeiro momento em que, na tendência de declínio, na militância e na penetração eleitoral, há uma consolidação da inversão de sentido. O mérito desta mudança deve-se em grande parte à figura de Jerónimo, aos seus méritos comunicacionais e à mudança de estilo nas intervenções dos SG do PCP, aos seus dotes projectivos de parte do eleitorado se sentir confortável no contacto com um dirigente partidário que “fala e é como nós”. Quanto ao resto, é sobretudo obra da sedução que Jerónimo conseguiu capitalizar junto dos “media”.

2. Se há, com Jerónimo, uma inversão de declínio eleitoral, o “score” continua abaixo dos dois dígitos, os números dos votos ficam-se pela metade do máximo de votos já conseguidos pelo PCP. Tratar-se-á, pois, de uma recuperação de franjas desanimadas e descrentes, insuficiente para romper os limites de penetração tradicionais. Ou sequer se aproximar da sua máxima ou média influências. Uma parcial revitalização endogâmica, pois.

3. Comparando com as lideranças de Cunhal e Carvalhas, o estilo de Jerónimo tornou o PCP mais “popular”, “mais simples” e “mais digestivo” – em vez do “discurso culto e estratégico” de Cunhal, do discurso “triste e economicista” de Carvalhas, ambos saídos das elites culturais, ambos distantes das massas e das pessoas, com vidas resguardadas no mistério do segredo, temos, com Jerónimo, a exposição humana, a transposição oratória das dificuldades correntes e da saudade abrilista, a comunicação coloquial, o imaginário metafórico, assente sobretudo em provérbios, próprio da sabedoria tradicional. Entretanto, arredado do poder, remetido às fortalezas sindicais sem classe operária, o PCP (já) não assusta a burguesia, com esta muito mais incomodada com as radicalidades bloquistas. O PCP, com Jerónimo, tornou-se num número integrado no arco da figuração democrática, sem capacidade de gerar fenómenos convulsivos e não pôr em causa a “ordem estabelecida”.

4. A recuperação de mobilização dos fiéis, sobretudo evidente na última campanha, deve-se tanto ao carisma de Jerónimo, como à “simplificação” do PCP. Ao transpor o discurso teórico da “análise marxista-leninista” e às subtilezas e meandros da gestão entre táctica e estratégia, para a simplificação bipolar do “populismo/eleitoralismo” do “discurso de Jerónimo” (“eleitoralista” nas fases eleitorais, “populista-reivindicativo” nas etapas inter-eleições), num partido em que a tradição de marca era que “sem teoria revolucionária, não existe prática revolucionária”, a militância tornou-se comezinha e unificadora, na base ideológica menor – é fácil ser-se comunista, bastando gostar do Jerónimo, estar com o Jerónimo, apoiar o Jerónimo, afinal, “ser jerónimo”.

5. Ao “simplificar-se” na fase pós-Cunhal, “popularizando-se”, gerindo patrimónios de élan de simpatia, ultrapassada a fase de transição e luto cinzentista de Carvalhas, o PCP abdica do seu figurino “vanguardista”, da sua segmentação entre “quadros” e “base”, horizontalizando-se no tarefismo e na fé, na imagem nacional-obreirista dos humilhados e ofendidos. Para tanto, para alimento e satisfação da “corte” da mediocridade política e ideológica que Cunhal permitiu que crescesse no seu quintal (como condição de defesa da intocabilidade da sua grandeza e unipolaridade), temos um operário simpático e extrovertido, bem falante, um autêntico maná, sobretudo quando caído em tempo de magreza de “vacas sagradas” do internacionalismo proletário. E, passada a fase do marxismo-leninismo (coisa complicada essa), há o que há – um “partido de jerónimos” onde existiu o PCP.
publicado por João Tunes às 17:29
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6 comentários:
De Ana a 3 de Fevereiro de 2006 às 23:49
Pois acho q Vc está assim para o Xéxé...há qualquer coisa que lhe está a fazer falta. Olhe ponha-se em bicos de pés e mesmo assim não sei se chega às solas de Jerónimo de Sousa...
Será q tá com receio q lhe cortem a "coleta"? É q há quem nem ordenado tenha e andem para aí reformas chorudas a pedir seres repartidas por quem nem pra comer...Contenha-se ganhe tino q já tem idade para isso. E sabe? muita gente vira a casaca, "evolui" já foram alguns, olhe o Joaquim PM..., a vc aconteceu-lhe o mesmo, "transformou-se"


De Ana a 2 de Fevereiro de 2006 às 12:48
Já vi um lago gelado - o Balaton - achei lindo...
Lá por esses lados, bebia-lhe uma vodka de vez em quando, para aquecer. E eu nem sou de beber quase nada com alcóol (um vinho à refeição e pouco mais), mas aquilo lá fazia falta.


De Jos a 2 de Fevereiro de 2006 às 01:37
O João tem mesmo um problema mal resolvido com o PCP. Mas agora já percebi qual é. É mesmo o Complexo de Édipo. Mas não se incomode tanto com o PCP que ele não se preocupa consigo.

Eu acho mais piada aqueles que querem renovar a cidadania com o recurso às baixas por falsa doença. É caso para dizer: Temos Homem!


De Joo a 1 de Fevereiro de 2006 às 22:34
Não, não se trata de imagem sobre "férias brasileiras" nem na minha muito estimada Ribeira do Sado. A imagem é recente (AFP), mostrando 3 croatas (não sei se são "jerónimos", julgo que não, pois eles fartaram-se deles nos mais de 40 anos no poder sob a pata do Marechal Tito), aproveitando este frio glacial que veio Europa fora, para confraternizarem exoticamente sobre um lago gelado e com substância de gelo suficiente para lhes aguentar a folia. Não quero ser mau, ou pior do que já sou, mas estes 3 compichas croatas e tardando nada (os outros, os "jerónimos", os de cá, isso não sei) têm de abreviar a festança pois não há fé nem dogmatismo que aguente o degelo. Ou, então, a comemoração acaba em banho... E, às tantas, o Muro ainda cai segunda vez.


De RN a 1 de Fevereiro de 2006 às 22:17
Parabéns. Muito bem caracterizado. Sem querer ofender ninguém lá da casa, menos ainda tendo em conta a simpatia popular do líder, é o que chamo de comunismo de sociedade recreativa.
Um abraço


De ana a 1 de Fevereiro de 2006 às 21:47
Não querendo retirar o cariz sério ao assunto e porque acho que as coisas sérias também podem ser "lidas" com humor, venho perguntar se os três Jerónimos da foto foram "apanhados em flagrante" numas férias brasileiras ou se isso é ali mesmo, na Ribeira do Sado ? As imagens que Você desencanta, João, são um encanto !


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