Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2006

UMA ESTRELA PARTIDA NA CONCHA DA MÃO

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Quando apanhei a notícia da perda de José Salvado Sampaio, do Professor Salvado Sampaio, já ele descansava sem a possibilidade de, simbolizando um luto, dele me despedir, retribuindo-lhe com um arremedo de mão cheia de terra nossa mãe, enfeitada com uma flor campestre pensada, o tanto que lhe devo. E tanto que é.

Só a profunda modéstia de Salvado Sampaio explica este desencontro. Ou, então, foi erro meu de petulância pensar e esperar que ele, ou alguém por ele, me avisasse que nos tinha de deixar.

Salvado Sampaio foi o meu melhor Mestre. E é-me impossível admitir que haja Mestre melhor e maior. Deu-me aulas de História e ensinou-me a descobrir o feitiço da curiosidade infinita, ainda hoje o meu maior vício a tentar, nunca desistindo e nunca alcançando, o prazer de improvisar decifrações, montadas e desmontadas, sobre os enigmas de onde vimos e para onde vamos. Homem grande, em toda a acepção, com uma dignidade de porte que só tinha comparação com a serenidade da postura e o brilho dos olhos a faiscarem descobertas nas aventuras humanas dos passados e dos futuros. Em pleno e duro fascismo, naquela minúscula e decrépita Escola Fonseca Benevides (em Santos, Lisboa), o Professor Salvado Sampaio era uma “ameaça” de devir numa sociedade de homens e mulheres livres, espicaçados pela curiosidade infinita. E, para nós, jovens inconformistas de então, essa “ameaça”, muito graças ao seu carisma, transformava-se em apelo a seguir-lhe, pelo menos, o desafio do brilho digno do seu pedagógico olhar. A sua obra e prestígio ganharam uma dimensão muito além das paredes daquela velha escola. Reconhece-se hoje, sem esforço, que foi um dos nossos melhores pedagogos. Com obra feita, antes e depois do 25 de Abril. A que aliou uma dimensão importante de construtor do sindicalismo do professorado.

Faltar-nos o nosso melhor Mestre, é duro. Uma orfandade de luto difícil, assim a modos que ficar a olhar para a concha da mão e encontrar nela uma estrela partida. Fica a obra e o exemplo, valha-nos isso. E o futuro. Pois, o futuro, esse é que não podemos perder. Pelo menos, em nome do passado, onde Salvado Sampaio continua a brilhar com o olhar eterno de grande pedagogo, sindicalista e democrata.

Imagem: A minha turma e os meus professores no ano lectivo de 1961/62 na Escola Fonseca Benevides. Na fila de cima e da esquerda para a direita, o Professor Salvado Sampaio, seguido do Arquitecto Augusto Sobral (também um conhecido dramaturgo) e que era meu professor de Desenho, seguindo-se o autor deste blogue, engravatado nos seus dezassete anos. Na segunda fila, a quarta senhora é a Professora Matilde Rosa Araújo, também emérita escritora.
publicado por João Tunes às 15:52
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3 comentários:
De Joo a 6 de Fevereiro de 2006 às 23:47
Olá Guida, pois é. Foi bom ver juntares-te ao grupo que seria o teu grupo no ano seguinte. Mas o Mestre chamava-se Salvado Sampaio. De salgado nada tinha, nem de feitio nem de nome. Salgado sou eu, não de nome, segundo queixas sem fim que todos os dias me chegam à caixa de correio. Beijão para ti.


De Guida Alves a 6 de Fevereiro de 2006 às 19:12
Não conheci pessoalmente o Professor Salgado Sampaio, mas também acabou por ser para mim uma referência, por tanto me falarem dele e da maneira como incentivava os jovens. Comove-me esta tua homenagem a esse grande homem e associo-me a ela. E como não podia deixar de ser, lá estão na foto as nossas colegas de IIL, a Graciete, a Elisa, a Sara Ivone, as duas Lurdes, a Elizabete, mais uma loirinha de cujo nome não me lembro, e se calhar ainda mais uma ou duas de quem já não me lembro. Múltipla homenagem, portanto. Gostei do reencontro. Beijo amigo.


De ana a 6 de Fevereiro de 2006 às 16:08
Que título lindo, que homenagem bonita. E sentida, pode-se perceber.
E merecida, certamente. Reconhecimento e gratidão também enobrecem quem os sabe manifestar.


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