Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2006

SOBRE MÁRIO DE ANDRADE

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Mário de Andrade (muitas vezes nomeado como Mário Pinto de Andrade), angolano falecido faz uma década e meia, terá sido o independentista que mais elaborou o pensamento político e ideológico que marcou a matriz dos movimentos anticoloniais desde a sua génese nos anos cinquenta do século passado. Era, essencialmente, um “intelectual”. Melhor, um “inelectual político”. Como veio a demonstrar até pela forma difícil como lidou com a “causa” dentro do MPLA. Ter-lhe-á, porventura, faltado o sentido pragmático, ou a sujeição a ele, que permitiram a grandeza ímpar do sucesso e fama de Amílcar Cabral. Mas julgo não ser injusto se considerar que, sem Mário Andrade a “pensar”, o nacionalismo-anticolonialismo português (angolano, guineense-caboverdiano, moçambicano) não teria chegado onde chegou. Só lendo e entendendo o labor de formulação política de Mário de Andrade, é possível procurar perceber como foi possível que, do seio de sociedades coloniais primarizadas, sem elites minimamente significativas entre os nativos, elaborando o florescimento prolixo e contraditório do nacionalismo africano e juntando-lhe (depois libertando-se do seu constrangimento) a experiência do antifascismo metropolitano, com a sua matriz marxista, foi possível combater e vencer o colonialismo europeu mais persistente e mais resistente, mais fechado e mais serôdio (e que, ao resistir durante treze anos pela guerra sem quartel, acabou por dar a outra componente de identidade, estruturação e consistência à causa anticolonial, militarizando-o também).

Resumindo, “do outro lado das armas”, a faceta mais conhecida do combate dos movimentos de libertação, houve um pólo de pensamento político em grande parte construído suadamente por Mário de Andrade. Não só por ele (o homem da “grande síntese”, da “praxis”, foi, indubitavelmente, Amílcar Cabral), mas muito por ele.

Uma das facetas mais fascinantes em Mário de Andrade, aquilo que o tornou em património político e intelectual da humanidade (e porque não da “portugalidade” se entendida como expressão saída do pensamento histórico da partilha mista, conflitual, de um mesmo espaço?), terá sido, a par do seu comprometimento com a causa da dignidade e identidade africanas, não se furtando à luta necessária porque imposta (pelo falar das armas quando outro falar não se permitiu), é o facto comprovado pela sua trajectória (acertando e errando) de a sua “praxis” nunca lhe ter roubado a independência do pensamento e a rebeldia perante a opressão de uma qualquer rigidez, mesmo quando substituta e infiltrada entre os “seus”. E tendo imaginado uma África livre do colonialismo - essa opressão boçal dos deserdados europeus promovidos a negreiros de mar, terra e guerra -, Mário de Andrade nunca baixou a bitola do seu sonho de uma África redimida dos seus miasmas, mistos do pior da história da Europa e de África, bem como dos seus encontros e desencontros, quase sempre trágicos. Por assim pensar, Mário de Andrade foi sempre, em simultâneo, um militante e um desalinhado, um exigente, enfim: “um intelectual”. Figura maior na criação da oposição sem peias ao colonialismo português, depois pedra chave na percepção lúcida que o negreiro-mor (Salazar) só vergaria pela razão do cano da espingarda (a única que o ditador escutava), depois na construção do MPLA, não se vergou às “novas tiranias” geradas no seio do caldo multiforme da luta anticolonial. E assim, Mário de Andrade não pactuou com os tiranetes gerados na espuma da “maré africana” do saque do “tesouro colonial”. Foi sempre crítico impiedoso dos “chefes africanos” que se sentaram no poder para imitarem, pelo pior, os colonialistas escorraçados. Como não aceitou o “mando à soviética” de Agostinho Neto, ou seja, a substituição do mando à colono pelo mando estalinista, nesse unicismo, capaz das piores patifarias e renovadas opressões, copiado de Moscovo ou aprendido em discípulos obedientes como Fidel e Cunhal. E, com a mesma rebeldia inconformista com que entrou na diáspora africana para sair da opressão colonial portuguesa e a combater, iniciou nova diáspora, novas rebeldias, sem trair a sua ideia grandiosa e exigente de África, levando-o a novos exílios, sem se permitir deixar de pensar pela sua cabeça nem abdicar do seu sonho “afro-elitista”.

Recomendo vivamente a leitura da excelente palestra de Carlos Lopes (*) sobre Mário de Andrade. Disponível aqui.

(*) Carlos Lopes, nasceu na Guiné-Bissau. É sociólogo, Ph.D. em História pela Universidade de Paris-1 e especialista em desenvolvimento e planeamento estratégico. Iniciou a carreira nas Nações Unidas em 1988 como economista do desenvolvimento. Em Junho de 2003, foi designado pelo secretário-geral da entidade, Kofi Annan, como seu representante no Brasil, que acumula também com as funções de representante-residente do PNUD.
publicado por João Tunes às 13:22
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