Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006

O ÚLTIMO LIVRO DO ÚLTIMO RENOVADOR?

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Na sua recente entrevista ao Público/Rádio Renascença, Jerónimo de Sousa aborda a “extinção” do movimento renovador dentro do PCP:

“Conseguiram [os renovadores] federar descontentamentos com base nesta ou naquela razão justa, neste ou naquele caso de tratamento menos correcto. Curiosamente, hoje, o que vejo é uma reaproximação ao partido, enquanto esse núcleo [os renovadores] já não estão cá.”

Julgo que as palavras do SG vão além da prosápia e constituem um diagnóstico bem aproximado da realidade da situação interna no PCP. De facto, tudo indica, pelos menos considerando os tempos imediatos, tendo para mais em conta o efeito dos últimos resultados eleitorais, há uma normalização da linha política, o “centralismo democrático” está estável num pacífico “render da guarda” entre os velhos bolcheviques (cedendo à ditadura da lei da vida) e um novo corpo criado a partir do funcionalismo político pós-25 de Abril, ainda que sob controlo da “troika” que assegura a linearidade do respeito para com o património deixado por Cunhal (Domingos Abrantes, Albano Nunes, José Casanova) e com Jerónimo remetido a fazer o papel de maestro das “relações públicas” e do “marketing político”. Num balancear permanente entre o “eleitoralismo” (nos períodos eleitorais e em que brilha o Jerónimo “super-star”) e o “populismo reivindicativo” (vigorante entre eleições, em que o trabalho partidário gravita à volta do aparelho sindical), há uma tremenda simplificação da vida política e partidária que, nivelando a militância ao nível mais baixo da exigência nas respostas e no estudo criativo na sua formulação, assente em estereótipos que antes foram património exclusivo dos “esquerdistas”, resultando uma unificação vivificante do factor de fé e a congregação através do reforço do espírito de corpo. Assim, se a diferença, menos ainda a divergência, não têm espaço, como surgirem perturbações de “renovação”?

A “Dom Quixote” publicou recentemente um interessante livro sobre João Amaral (*), talvez o último entre os mais conhecidos, lúcidos e combativos entre os “renovadores do PCP”. O grande interesse deste livro (para além dos depoimentos variados e das inúmeras e fascinantes fotografias) é a percepção clara do “mito da renovação” que, em camadas sucessivas iludiram tanta e boa gente (pela nível do pensamento político) na convicção de quer era possível “modernizar” o PCP, confluindo-o com a prática da vida democrática e expurgando-o da sua matriz estalinista que, confirma-se, é pedra de toque da sua sobrevivência e ainda lhe pode render um ou outro arreganho. Recomendo, até porque se poderá tratar do “último livro” sobre o “último renovador”. Com interesse documental especial, portanto.

(*) “João Amaral – In Memoriam”, Edições Dom Quixote
publicado por João Tunes às 17:06
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