Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2006

O TANAS

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Se alguém diz bem o que tentamos dizer, porque não o repetir?

“Mergulhado em infindáveis discussões sobre os “cartoons”, dei de caras com imensa gente que não consegue dizer em voz alta a seguinte frase: «a civilização ocidental é superior à civilização islâmica». O adjectivo “superior” fica-lhes entalado na garganta, como um tabu semântico da grossura de um osso, e geralmente perdem-se em divagações sobre a complexidade da questão, as múltiplas matizes do problema ou a dificuldade em definir o conceito de “civilização”. Tanto relativismo multicultural provoca-me urticária, e acho espantoso que alguém possa defender que aquilo que hoje nos separa, por exemplo, Portugal do Irão em termos sociais, políticos, culturais ou civilizacionais seja apenas do domínio da subjectividade. Nós somos assim, eles são assado, e cada um é como é, certo? Errado. Entre Ahmadinejad e Freitas do Amaral, apesar de tudo, prefiro Freitas do Amaral.”

“Dizer que a minha cultura é superior, que a minha sociedade é superior, que a minha civilização é superior, ou, já agora, que o Novo Testamento, quer em termos literários quer em termos éticos, é superior à linguagem legalista e guerreira do Alcorão não significa que eu esteja possuído por um qualquer espírito de cruzada e que me apeteça andar por aí a converter infiéis. O que menos quero é impor, a quem quer que seja, a minha cultura ou o meu modo de vida. Simplesmente, como resumiu Vasco Pulido Valente com o brilhantismo habitual, uma coisa é ser tolerante; outra coisa, bem diferente, é ser tolerante com a intolerância. O problema da blasfémia já foi por nós resolvido quando deixámos de queimar bruxas no Terreiro do Paço. Três séculos depois, é insultuoso andar à cata de justificações para não fazermos autos-de-fé de cartoonistas ou a pedir moderação nos rabiscos dedicados ao profeta. Tempos houve em que a cultura árabe era a mais sofisticada do planeta. Mas esse tempo passou e ninguém, excepto os fundamentalistas, deseja voltar à Idade Média. Podemos gastar horas a debater o que é bom, o bem e o belo, mas há um facto indesmentível: os muçulmanos emigram para os países ocidentais, e os ocidentais não emigram para os países muçulmanos. Tudo é relativo? Relativo o tanas.”


(João Miguel Tavares, DN de hoje, não disponível na versão on-line)
publicado por João Tunes às 16:31
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