Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2006

A GUERRILHA AINDA ESTADO

paigc[1].jpg

Apesar de o “desaguisado” com a Susana havido neste post ter ficado pacificado por pós-esclarecido (aviso á navegação: não há sangue derramado, estamos amigos como dantes!), não posso deixar de precisar alguns pontos menos claros naquilo que pretendi dizer e que são reflexões pessoais abertas à discussão.

1) O colonialismo português, inevitavelmente e como os outros, estruturou-se no conceito da presumida eternidade do seu domínio. Esta convicção teve o preço, também inevitável, de adquirir uma lógica de inércia conservadora, jogando sempre a curto prazo na rentabilização do domínio colonial.

2) Sendo Portugal a potência mais fraca entre as potências coloniais, os interesses de repartição do saque colonial eram sobretudo decidido por outros (ingleses, franceses, alemães, holandeses e espanhóis) bem como o quinhão que nos cabia ou sobrava. E se o império se manteve tanto tempo, isso deveu-se a alguma perícia diplomática nos jogos de aliança e de protecção (sobretudo com a Inglaterra, embora com permanentes aspectos contraditórios). Afinal, o que valemos na Conferência de Berlim, a da repartição que se mantém actual, feita a régua e esquadro, da África colonial?

3) Portugal passou da ocupação das feitorias costeiras, numa lógica e vocação de colonialismo mercantilista, para a ocupação territorial, quando essa foi condição imposta para a manutenção das possessões coloniais. E data daqui, não mais longe que o século XIX, a gesta da ocupação militar dos territórios coloniais. E, como se sabe, não foi nada fácil nem barato, em meios e em vidas.

4) Até ao surto das independências africanas, na década de 50 do século XX, não preparámos elites africanas até porque o indígena ainda era visto sob o prisma do racismo mais serôdio. E quando os “ventos da história” sopraram a negritude e o nacionalismo independentista, criar tais elites era alimentar a ameaça (por cada dois licenciados negros, provavelmente pelo menos um era um potencial inimigo do domínio colonial). Assim, o problema das elites tornou-se um nó cego, impossível de desatar. Exemplo disso foi o consulado de Adriano Moreira como Ministro do Ultramar, que só durou um ano (em 1961) e foi a evidência da impossibilidade reformadora – qualquer reforma era insuficiente, qualquer reforma agravava a situação. Reveladora foi a saga zigue-zague da criação de Universidades em Angola e em Moçambique.

5) A via da guerra colonial, impondo-se, e tendo sido prolongada como foi, criou uma lógica de guerra na estruturação do colonialismo português. E, por outro lado, impôs que as elites africanas não corrompidas pelo colaboracionismo com o ocupante, se construíssem e se formassem na guerrilha, assente sobretudo, até pelas suas políticas de alianças, determinadas pelo apoio logístico e militar, em espécies de afro-marxismo militar.

6) Quando das independências, a substituição do poder colonial foi feito pelas estruturas guerrilheiras. Eram elas que tinham forças armadas e de segurança, os meios de agitação, mobilização e propaganda, a capacidade administrativa herdada da gestão das “bases”, das “áreas libertadas” e dos “santuários”. Eram os guerrilheiros que tinham, e só eles, não só o poder armado, como a capacidade de disciplina, projecto e quadros.

7) No quadro anterior, a excepção foi Cabo Verde – não tinha eclodido a guerra no arquipélago mas tinham quadros guerrilheiros em quantidade, formados no PAIGC, onde desempenharam lugares de destaque nos combates em território guineense. Depois, com a fractura da unidade Guiné-Cabo Verde, a concentração de quadros guerrilheiros caboverdianos em Cabo Verde ainda se acentuou mais.

8) Diferentemente das restantes colónias, Cabo Verde tinha um numeroso destacamento de quadros intermédios de média escolarização, sobretudo crioulos e mestiços, com uma longa tradição de suporte do aparelho administrativo colonial.

9) Passados trinta anos sobre a descolonização, constatamos a persistência das mesmas elites estatais quando da vitória guerrilheira – a Frelimo manda em Moçambique (e a oposição é a Renamo que combateu o poder da Frelimo pelas armas), o MPLA manda em Angola (e a oposição é a Unita que combateu o poder do MPLA pelas armas), Nino Vieira (um histórico do PAIGC) manda na Guiné aproveitando os cacos étnico-anarquisados do PAIGC, Pedro Pires e o governo de Cabo Verde, são do PAICV. Ou seja, em todas as antigas colónias, persistem, nos poderes estatais, as mesmas estruturas, adaptadas sobretudo em termos de alinhamento geoestratégico e de filosofia política, que foram criadas e desenvolvidas pela prática do combate armado ao colonialismo português. Ou seja, por via simétrica, os quadros estatais cimeiros das antigas colónias portuguesas continuam a ser os que foram “formados” pela guerra colonial. Ainda, acrescento e concluo.
publicado por João Tunes às 17:57
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Joo a 17 de Fevereiro de 2006 às 22:30
Francamente, caro n'gola, não vejo qualquer diferença na substãncia da frase (o exército colonial não defendia o colonialismo?). Mas aceito a sua proposta de reformulação. Obrigado pelo contributo.


De ngola a 17 de Fevereiro de 2006 às 22:19
"...prática do combate armado ao colonialismo português ", ou prática do combate armado ao exército colonial português?


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. HONRA A GARY COOPER

. Efeméride ao cair do pano

. E VÃO DOIS, QUE DOIS

. AFINAL…

. DESABAFO MASOQUISTA

. Bom fim-de-semana

. CHE E AS MAMAS DA VIZINHA

. AINDA (SEMPRE) MÁRIO PINT...

. CAMILA VAI PARA A TROPA

.arquivos

. Setembro 2007

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds